Fomos Metálicos nos Anos 90!



No final de uma longa semana de escritório, a poucos minutos de saírmos para beber umas cervejas de catarse, entrei no youtube e escolhi de forma inconsciente ouvir uma velha música dos Benediction, “The Grotesque”. Fiquei perdido, a imitar sem  talento nem técnica a batida seca da bateria, a execução insidiosa de cada riff e a violência gutural da voz.

 Por um momento não estive de certeza naquele escritório, mas num globo de neve, das minhas memórias em cristal. Uns bons passos de caminho dados numa velha estrada. Uma viagem curta, porque quando levantei os olhos, os meus colegas olhavam-me com espanto. Porquê uma banda aleatória de metal, com qualquer coisa de anónima, dos anos 90? Nenhum deles me conhecia esse gosto, em absoluto. Não falámos mais sobre isso. 

 Mas sim, porquê Benediction, uma banda com um estatuto pouco mais do que underground, no seu tempo próprio, e porquê essa música? Até para mim a decisão tinha algo de inconsciente, de surreal. Mas depois, lentamente, percebi: essa música longínqua, tal como muitas outras mais ou menos obscuras, que lhe são contemporâneas, viveu sempre dentro de mim. Sobreviveu a todas as minhas etapas, gostos adquiridos e cultura acumulada. Sobreviveu a várias mudanças de estilo, de paradigma. Hibernou durante ciclos, estações. Saiu sem uma cicatriz daquela  velha percepção, a que todos chegamos, em nome de uma ideia de liberdade:   a de que ter um estilo, ser-lhe devoto, é um absurdo, porque nos prende, porque nos fecha, porque nos limita. Apesar de tudo, essa música continuava invicta, a ressoar em mim. Um metal precioso, não oxidado por 20 anos de cinismo, de crescimento, de maturação, de encaixe, de normalização.

  A minha geração cresceu a invejar todos os que viveram no tempo certo um grande paradigma cultural, uma experiência de mudança colectiva, revolucionária, transversal e fragmentária, como a era Hippie,  o Maio de 68, a sobrevivência heróica ao pesadelo dos anos 70, o punk. A típica revolução que marca para sempre uma geração. Que lhe deixa marcas e cicatrizes que não consegue, nem quer, disfarçar. Que dá às pessoas dessa geração aquela ponta de soberba, aquela solidão orgulhosa  que ostentam. E para nós, o que deixara a História?

 Mas, talvez até sem nos apercebermos, também nós vivemos um período muito próprio e de certa forma irrepetível da cultura popular: fomos metálicos nos anos 90. E digo metálicos, sim, não metaleiros, termo que que foi entrando de mansinho ainda durante a revolução do metal. E essa experiência marcou, não decerto toda uma geração, mas todos os que decidiram entregar-se a ela de forma inteira, em corpo e espírito.  O poder e o impacto dessa experiência foram de tal forma  que muitos dos meus amigos nunca se desligaram completamente dela, e continuam a assumi-la como parte da sua identidade, celebrando os seus rituais, os seus dogmas, os seus encontros, a sua agenda. Continuam a vivê-la e a entregar-sea ela. Para alguns, a ideia de que o metal foi uma fase é simplesmente abstracta, ofensiva. E é legítimo que olhem com desprezo o distanciamento com que me permito lembrar, com ares de exilado, o que nos aconteceu nesse momento, para mim único, das nossas vidas. Mas, e eles sabem-no como ninguém, uma coisa destas não se ignora, não se esconde, não se esquece. Não se guarda numa caixa, dentro de uma gaveta, como uma fotografia antiga de uma ex-namorada.

 O metal nos anos 90 do século XX, à sua escala, foi uma revolução tão importante como a do romantismo, no final do século XIX.  E os paralelismos que sustentam esta ideia são vários. Ambos os movimentos foram, pela cronologia, correntes estéticas e artísticas de final de século, com o impacto inconsciente, colectivo, que o final de um século sempre provoca, na recusa de ideias e modelos, na procura de alternativas. E havia o mesmo cansaço, nas suas raízes. Ambos temeram o futuro. Ambos fugiram do presente. São ambos reacções - seja como negação, seja como celebração doentia e paradoxal – a uma realidade belicista e imperialista. No final do século XIX, a prepotência dos grandes impérios europeus, sustentada pelo crescimento material da segunda revolução industrial, gerava tensões que conduziram à  I Guerra Mundial.  Nos anos 90 do século XX, as cicatrizes de mapas desenhados a sangue na herança desses confltos, e o ressurgir do imperialismo, resultavam em novas guerras: Balcãs, Golfo.  E o metal, talvez mais especificamente o Black Metal, usou todo o património do romantismo para se refugiar do desencanto.  

Assim, nesse paradoxo atávico, e de uma ironia que nos escapava, bebíamos de uma contracultura marcadamente  anti-tecnológica e industrial nos mesmos meios e suportes que esse desenvovimento nos deu. Nas aparelhagens compactas, nos Walkmans e Discmans, na tecnologia dos Cds, gastávamos cada hora a ouvir bandas que celebravam batalhas teutónicas, decididas com espadas, escudos e machados e que invocavam um imaginário medieval, cavaleiresco, primordial. Orgulhosamente pré-industrial. Sem  quase nos apercebermos, absorvíamos o espírito e os versos de Byron, Percy e Mary Shelley, Keats, Yeats. E vivíamos todos nesses “Locus Horrendus”, góticos, do romantismo, em penhascos e escarpas de mares escuros, em torreões de castelos em ruínas e conventos perdidos nas florestas cerradas e no isolamento da Idade Média. 

 A nossa aprendizagem de rua, de tribo, fazia-nos viver e respirar nos mesmos mundos que os professores de História, Línguas e Filosofia de secundário se esforçavam por nos ensinar academicamente, em esquemas frios e apontamentos inertes sobre o século XIX, temendo que os mesmos nunca passassem de uma abstração para nós. E o metal dava-nos assim tavez o maior legado de todos:  uma erudição e uma cultura não apenas apreendidas, não apenas cumuláveis, não apenas académicas, mas vivas, sentidas e celebradas. Nada mau para uns rapazes de uma cidade pequena e deprimida, a descoberta de um sentido, de uma metafísica, de um refúgio no espaço e no tempo. Foi a descoberta de um tesouro. Foi, a seu modo, uma salvação. A nossa salvação. 

 Cada um de nós tinha uma função, como numa pequena célula de uma tribo. E uma especialidade e uma predilecção. Alguns eram devotos do Death Metal, que celebrava e reflectia sobre o carácter agressivo, brutal e violento do homem, e havia nisso uma intocável honestidade, uma absoluta sinceridade e pureza. Outros elegiam o Doom Metal, melancólico, arrastado, nostálgico, na sua busca pelo belo, pelo etéreo, pela fatalidade. Outros ainda o Black Metal, satânico e pagão, de um misticismo proto-histórico e medieval, luxurioso, pejado de códigos e referências. No plano prático, uns desenvolviam fanzines, outros tinham um programa de rádio, outros uma distribuidora.

 A cena do metal, anterior à era das comunicações digitais e das redes sociais, foi a mais eficaz e completa network de comunicação e colaboração que conheci, a uma escala global. Os programas de rádio, que gravávamos em k7’s gastas, as fanzines, os flyers e até mesmo os concertos, promoviam bandas de todo o mundo, que consumíamos em Demo-tapes, EP’s e Cd´s. Só esta rede sólida, celular, organizada, totalmente analógica, permitiu que nos anos 90 o metal se tornasse numa verdadeira indústria à escala global, com editoras e distribuidoras como a Nuclear Blast e a Music For Nations a elevarem ao panteão dos Deuses do Metal e ao estatuto de lendas e monstros sagrados bandas com uma identidade própria e fundadora como os Anathema, os My Dying Bride, os Paradise Lost, os Cradle of Filth, os Tiamat, os Moonspell, os Orphaned Land. E só uma cena verdadeiramente sólida e honesta no seu modo de funcionamento permitiu que continuássemos a reverenciar tanto as bandas que alcançaram esse estatuto mainstream como muitas outras que por diferentes motivos o recusaram ou nunca atingiram.
Esse salto comercial, industrial e industrializante, pela generalização e reprodução de estéticas e estilos, pelo ênfase e repetição de esterótipos, ad nauseam, numa quase caricaturização de cada corrente,  acabaram por perverter uma certa ideia de pureza e originalidade selvagem, underground, e verdadeiramente criativa da cena de metal dos anos 90, que nós testemunhámos, e vivemos, no seu auge!

 Uma tribo é uma experiência de integração. Traz um uniforme, códigos próprios, distinções, hierarquias. Ser metálico nos anos 90 era ter amigos e irmãos em toda a parte. Amigos e irmãos muito específicos. Uma tribo implica um certo tipo de drogas, um certo tipo de álcool, um certo tipo de gostos por raparigas e um certo tipo de casamentos, e não outros quaisquer. Uma tribo não se trai. Um metálico dos anos 90 não ia a uma Rave-party. Uma tribo dita o que podes ter e o que nunca terás. Por termos feito parte desta tribo, saberemos sempre bem o que ganhámos. Mas por um certo sentido de lealdade e gratidão nunca nos permitiremos deitar a sonhar com o que perdemos. 

 A tal cerveja que bebi nesse dia, depois do trabalho, não a usei como catarse. Perdi-me a pensar em tudo isto. O que é que me levou a ouvir aquela malha de Benediction, a mostrar essa tatuagem invisível, essa marca de guerra, de nascimento? Não podemos voltar a um álbum assim, como se comprássemos um bilhete para o passado. Com reverência, com solenidade, saímos rápido dessa estrada. Porque nos leva a um mundo onde nos poderíamos ter perdido. Onde se calhar uma parte de nós se perdeu mesmo. Nunca voltou.  

O tempo de uma cerveja chega para caminhar apenas alguns passos na tal estrada. À beira dela, logo no início, há um plátano enorme. À sombra dele, ainda nos consigo ver a todos, putos de uma cidade pequena, de volta de uma caixa enorme que viajou da Alemanha pelo correio. O remetente bem desenhado a carimbo: Nuclear Blast. Naquela manhã infinita faltámos às aulas e abrimos a caixa como a um tesouro, todos juntos. Entre t-shirts de bandas, ep’s, cd’s e Vhs pejados de videoclips havia uma colectânea em Digipack, a “Death is Just the beggining – Vol. 3”. Quando recuei nessa estrada, de volta, pareceu-me ouvir ainda os primeiros acordes, da primeira música, dessa compilação. Só reconheci a música depois, aquele riff insidioso, mas distante. Era aquela malha dos Benediction.





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