J. G. Ballard: "Gentes do Milénio". Escrita regada a gasolina




Se um repositor de supermercado subversivo se lembrasse de colocar os romances de J. G. Ballard, em destaque, junto aos expositores de canapés, centros de mesa, ou da última gama de ambientadores de fragrâncias orientais, mesmo a tempo de acordar do torpor a dona de casa de classe média, o mundo tal como o conhecemos poderia mergulhar no abismo. Se "Gente do Milénio" expulsasse Nicholas Sparks, Nora Roberts, manuais de espiritualidade new age, ou qualquer pedaço de literatura estéril das mesas de cabeceira da classe média, tornava-se na bíblia do apocalipse social. Mas como o mundo dos empréstimos, dos escritórios, dos filhos e das escolas que frequentam, dos BMW's, dos Fox Terrier's, dos cartões de crédito, e dos orçamentos familiares, ocupa todo o espaço físico, remetendo um assustador vácuo espiritual para uma condição não muito diferente de uma nódoa de última hora no bibe da escola, talvez o establishment possa agradecer que um romance desta natureza nunca venha a superar o estatuto de potencial, repito, potencial, lata de gasolina e caixa de fósforos num só.

A classe média é desde há séculos o pêndulo, a reguladora de marés, o ponto de equilíbrio, o garante de estabilidade do intrincado tecido social. É nessa massa disforme, distraída, ocupada e hipnotizada, que assenta o cimento de todos os sonhos de organização colectiva. O problema é que, composta por homens e mulheres que aprenderam a descurar os seus impulsos primitivos em nome do papel regulador que lhe foi atribuído, este exército anódino dos subúrbios, devidamente mobilizado, pode um dia dar por terminada a política de boa vizinhança, reagindo a preceito contra as pequenas e grandes hostilidades a que a foram e vão sujeitando, certos de que ela não reagirá, e dando voz viva a séculos de frustração e recalcamento.

O génio pirómano de Ballard, reside em identificar os sinais distópicos na mais angélica das realidades, reconhecendo a escravidão nos juros incomportáveis de uma hipoteca, no folheto de uma agência de viagens, ou num sonho formatado com o selo de Hollywood. Depois é só assumir que a mole dos aspersores de relva, numa manhã soalheira, acorda mal-disposta e com um inusitada auto-consciência e sentido de classe. O resultado desta equação é não menos do que o apocalipse, travestido numa saraivada de cocktails molotov, bombas de fumo, e carros de grande cilindrada em chamas, bloqueando as entradas de um qualquer complexo de vivendas, e a seguir outros, por contágio.

Sem a classe média, sem o seu compromisso, não há sistemas bancários, não há companhias de seguros, não há indústria automóvel, não há operadoras de televisão por cabo e internet, não há pacotes de férias para as Maldivas, não há...nada, a não ser o colapso e um amontoado de ruínas e cinzas, varridas pelo mesmo vento que desintegre os últimos sonhos de civilização.

E fica ainda outra pergunta, seguramente capaz de nos inquietar: e se a violência encarregue de deitar por terra toda a escravidão não seguir uma lógica, e se se libertar por fim da necessidade de um propósito, de uma razão, de um lugar, e nos aparecer livre, aleatória, imprevisível, pronta para espalhar o medo e a inquietude, para libertar - com o perfume do assombro dos primeiros dias- a besta que uiva na memória do nosso código genético?

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