Um dia, terminou assim. No regresso a casa, pelo mesmo caminho de sempre, surgiu uma dúvida. E o tempo parou. “Que caminho é este?”, perguntámo-nos. E era o mesmo caminho de todos os dias.
Conhecíamos o caminho,
sabíamos de cor todas as curvas, os cruzamentos, as manchas esbatidas de cada
parede, o pedaço em falta num degrau. Mas de repente, faltou-nos o que realmente
importava: já não sabíamos o que nos levava a fazê-lo, dia após dia após dia.
Perdemos o rasto do tempo. E parece que, afinal, já não conhecíamos tão bem
aquele caminho. Perdemos de vista o que nos levou a fazê-lo a primeira vez.
Dobrámos uma esquina, distraídos, e deixámos para trás a razão original, como a
um amigo que se demorou na montra de uma loja.
A fábula de Arto
Paasilina começou assim. Vatanen atropelou uma lebre, porque ia depressa
demais. E quando ela fugiu, para o interior do mato cerrado, e das florestas
onde o homem já não entra, Vatanen soube que tinha de fugir também. Antes que
fosse tarde de mais. Quando fugiu para a floresta, Vatanen sabia que
aquela era a última saída, a última porta. Para sair deste carrossel
descontrolado, que nos cuspirá a todos para fora do tempo.
Quando Vatanen fugiu,
na companhia da lebre, tornou-se livre. Nasceu, por fim. Quando finalmente o fez,
começou a ver, sempre que olhava. E quando se reencontrou com o mundo, com outras
pessoas, reconhecemo-nos, envergonhados: éramos nós. Vatanen encontrou-nos, no
meio de uma fábula. E que vergonha a nossa, vermo-nos assim, de fora. Tão
despidos, tão errados, tão perdidos na vertigem. A delirarmos, como loucos, tentando
chamar Vatanen de volta. De volta ao nosso mundo, à nossa prisão, a este lugar
sem nome. Para onde viemos sem fazer perguntas, e sem trazer connosco os sonhos
que tivemos.
E então, pálidos de medo, outra dúvida nos assaltou.
Se não pararmos já, ainda podemos ser felizes?

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