Às vezes vinha um nevoeiro do mar que enchia todas as ruas
da Marinha Grande. Nessa alturas não se via onde acabavam as ruas nem as
pessoas que passavam do outro lado da estrada, e era fácil imaginar uma cidade
diferente, com janelas grandes para a luz toda e jardins sem fundo, com
segredos onde se perdiam os amantes.
Naquela noite vendeu 60 € de pólen a um puto da casa ao lado
e roubou 20€ da carteira da mãe do puto. Foi a casa e tirou as chaves do Honda
Azul do bolso do casaco do pai, que dormia no sofá. Eram 6 de manhã quando o
mundo começou a mudar. Estava numa festa de Trance no meio de um pinhal e as
luzes de um estrado de madeira com uma Shiva começaram a unir-se numa linha
única, numa glória ofuscante.
Foi quando a Joana chegou, a discutir com o namorado, que
vinha um pouco atrás. E depois começou a afastar-se sozinha pelo pinhal, mas
ninguém a seguiu. Foi atrás dela. E quando a apanhou ela disse:
- Vamos fugir?
Correram sem ser vistos até ao Honda e arrancaram pelas
estradas do Pinhal em direcção ao mar.
Chegaram à Vieira e viraram à esquerda. A estrada era uma
serpente que amava o mar, e nunca o deixava. O mar vigiava-os na sua magnífica
ameaça escura. Passaram São Pedro de Moel, e seguiram, naquela hipnose, naquele
desfile de visões protegidas pelo silêncio.
Chegaram a uma urbanização vazia, à beira do mar. À entrada
para um Parque de Estacionamento em terra havia um cartaz grande, esfarrapado,
assente numas estacas de ferro comidas pela salitre. Dizia em letras grandes: VARANDAS
DE NEPTUNO, e em letras mais pequenas, e em palavras mutiladas, EXCLUSIVO… VISITE O MODELO. As letras sobre uma
fotografia da urbanização, que aí parecia ter vida, parecia ter uma luz
própria, mas em lado nenhum havia pessoas, nessa imagem. Ele reparou nisso e
pensou sem dar conta: “E as pessoas? Onde estão as pessoas?”
Desceram para uma baía pequena de areia e meteram na boca
meia pastilha cada um. Não havia luz, nem estrelas, nem música, só o rugido da
rebentação. E no entanto ela dançava.
- Já pensaste - gritou-lhe ele – se nos viesse buscar um
barco enorme?
- Para onde? – respondeu ela a gritar. E ele encolheu os
ombros. Não sabia.
Enfiou um vaso de pedra pela janela da porta, e abriu a
maçaneta por dentro. Entraram no andar modelo e ela desapareceu no corredor.
Ele abriu o frigorífico, que estava vazio. Tirou o telefone do descanso, na
parede, e pôs-se à escuta. Funcionava. Quando chegou ao quarto ela estava
estendida na cama. Ficou a olhá-la muito tempo. Pelo menos pensou que tinha
passado muito tempo, mas não sabia quanto. Dobrou um dos lados da colcha para a
cobrir. Primeiro pensou em beijá-la na cara, mas depois decidiu que não o
faria. Saiu de novo para a praia e ficou a olhar para o escuro.
De repente veio das trevas do mar um navio enorme, cheio de
lâmpadas e todo em cristal. Só a proa, primeiro, depois todo, deposto em
carícia pela água, sem abrir uma única cicatriz na areia. A espuma a beijar-lhe
o casco na despedida. E adormeceu sem assombro, a olhar o navio enorme.
Quando acordou, o navio de cristal era uma barcaça desfeita.
Um pedaço de lixo cuspido pelas ondas, e toda a luz era agressão. Voltou a
correr ao apartamento e viu o telefone caído em suspenso do descanso. Quando
chegou à janela do outro lado da casa viu-a a entrar no carro do namorado.
Ficou a ver o carro desaparecer ao longe. Bebeu uma cerveja mole que encontrou
na despensa e saiu. E voltou para a Marinha Grande pela mesma estrada da noite
anterior. O Honda foi engolido pelo Pinhal enorme, no labirinto das estradas
rachadas pelas raízes dos Pinheiros Bravos.

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